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O Rei (The King – Netflix – 2019)

Se procura um texto com crítica especializada em cinema, este não é o local mais indicado. A nossa ideia em falar sobre filmes, séries, jogos, livros e outras vertentes da arte que envolvam temas medievais, é a de casar uma visão histórica e realística com a do entretenimento que essas manifestações artísticas trazem aqui na nossa página. Logo, vamos à ela.

O entretenimento

A maioria das vezes em que nos colocamos na posição de espectador de um filme, seja no cinema, na TV ou em streaming, é a de nos entretermos com o que será apresentado durante aquele tempo que dispomos para tal. É importante lembrar também que muitos dos espectadores sequer sabem qual parte do filme tem fidelidade histórica e qual foi inserida para dar um bom andamento ao enredo do mesmo.


Sendo assim, todo o filme seguiu uma história concisa e direta. Sabemos, de antemão, que a trama foi baseada na peça Henrique V, de William Shakespeare, e não em um fundamento histórico realístico. Chega de rodeios e vamos direto ao ponto! Então: O que te prende na frente da TV, quando assiste ao filme? Pode ser um ator ou atriz que você goste muito. As locações espetaculares e grandiosas onde foi rodado. Ou, quem sabe, a trilha sonora do filme, recheada de canções inéditas ou já consagradas. É isso que normalmente vemos nos filmes, certo?


Em O Rei, não é que os atores sejam desconhecidos – a maioria realmente não é –, mas as cenas roubadas por uma interpretação são as de Robert Pattinson, como o Delfim francês Luís. Por mais que nossas “primeiras impressões” dele possam remeter ao aclamado e odiado vampiro brilhante de Crepúsculo, faz algum tempo que ele já se tornou um ator que pode (e deve) ser desvinculado desse papel. Já a atuação de Timothée Chalamet, como Henrique V, é segura e mostra que ele tem uma carreira promissora – devendo aparecer em filmes mais badalados rapidamente. O resto do elenco se mantém em um patamar abaixo dos dois que polarizam quase o filme todo, mesmo que Pattinson só apareça fisicamente na segunda metade.


Também não espere locações magníficas. Como O Rei foi baseado numa peça, a tendência era mesmo a de que os diálogos fossem fortes – como o são – e as locações fossem, em sua maioria, internas. As cenas de batalha são externas e pouca coisa além disso é retratada fora de um cômodo do castelo ou da taberna frequentada pelo jovem Henrique. Porém, e aí sim há um grande porém, existe a Batalha de Agincourt (que falaremos mais adiante) no meio disso tudo.

A caracterização e as personagens

Especificamente sobre caracterização, a de Chalamet como Rei Henrique V ficou muito boa e realmente semelhante com as gravuras da época; assim como a de Pattinson no papel do Delfim. As armaduras, entretanto, são um pouco fantásticas por não terem muita semelhança com as do século XV ou qualquer outro período histórico. Porém, vale ressaltar que, apesar disso, são armaduras que parecem ser funcionais em uma situação de combate.


Porém, o Delfim aparenta já ser um homem maduro e Henrique um jovem rapaz quando, na realidade, era exatamente o contrário. Na época da campanha, Henrique V tinha 31 anos e o Delfim apenas 19. Outro detalhe é que o Delfim sequer estava no campo de batalha em Agincourt, pois assuntos políticos demandaram sua atenção em Rouen. Portanto, o duelo entre Luís e Henrique foi puramente cinematográfico – o que também não o invalida no contexto.


Sobre o jovem Henrique, ele sempre foi criado para herdar a coroa inglesa. Inclusive, nunca houve dúvida na linha de sucessão, que não havia sido alterada. Quando o Rei Henrique IV morreu, seu filho já era um hábil administrador, havia provado suas habilidades como líder, um guerreiro experiente e também era reconhecido por ser um estadista proeminente em seu vindouro reinado. Bem diferente do que vimos no filme.


No filme foi possível ver de maneira breve que o Rei Charles VI era mentalmente instável, principalmente com a maneira fantástica com que o ator Thibault de Montalembert o interpreta. Os relatos históricos referentes aos delírios do monarca, dão conta de que repetidas vezes Carlos esquecia que era o Rei da França, quem era sua esposa e até mesmo seus filhos e, assim como no filme, havia momentos em que o monarca se vestia de maneira inadequada.


O irmão de Henrique V, Thomas, na realidade era um ótimo comandante militar, treinado desde pequeno na arte da esgrima e, com o passar do tempo, lhe foi concedido o treinamento para comandar no campo de batalha. Thomas, na realidade, morreu 6 anos após a Batalha de Agincourt e não como retratado na película.


Já a personagem Sir John Falstaff foi inteiramente criada por Shakespeare e não participou da Batalha de Agincourt na obra original. Nem mesmo como o homem que foi usado como inspiração: John Oldcastle. Oldcastle era amigo pessoal de Henrique V e morreu queimado na fogueira por heresia ao liderar uma revolta religiosa na Inglaterra – conhecida como a Revolta Oldcastle. Também não podemos nos confundir com Sir John Fastolf, que lutou na Guerra dos Cem Anos e foi derrotado por Santa Joana d’Arc na Batalha de Patay, caindo em desgraça perante os ingleses e manchando sua imagem como um covarde.


Uma grande crítica a qualquer filme ou série ambientados na Idade Média é a falta dos personagens tanto homens quanto mulheres de usarem artigos de chapelaria, dos quais eram tão comuns e importantes; seja para o homem demonstrar sua riqueza usando um Chaperon de veludo ou seda, quanto para a mulher cobrir seus longos cabelos com um Hennin dos quais eram considerados sedutores pelos homens – e por isto era preciso cobri-los. Assim como em boa parte nas cenas de combate os personagens não utilizarem elmos – o que sabemos que, em um combate, era algo essencial.

Fatos do filme vs. Fatos históricos: O que realmente aconteceu?

Como apresentado anteriormente, o filme retrata Henrique V com uma visão alheia à realidade medieval. Não apenas a sociedade inglesa do século XV, mas toda a construção dos personagens, personalidade dos personagens e a Guerra dos Cem Anos, possui uma fortíssima influência shakespeariana, ou seja, muito mais próximo de um romance do que da realidade.


Logo no começo da trama, por exemplo, quando uma guerra civil eclode, o exército de Henrique IV e o então príncipe Henrique encontra o de Henrique Hotspur. Historicamente, o príncipe e Hotspur não chegam a duelar pessoalmente – apesar de ser uma ótima cena do filme. Os exércitos se chocam violentamente e Hotspur é ferido com uma flecha no rosto. Henrique IV e seu filho vencem a batalha (sim, os dois estavam em campo naquele dia) e o duque rebelde morre dois meses depois pelos ferimentos.


Em outra cena, na tentativa de assassinato de Henrique V, historicamente não teve a ver com forjar um Casus Belli para a invasão da França. Henrique V realmente sofreu uma tentativa de assassinato, entretanto, foi um rival da linhagem do seu avô quem a promoveu, sem participação dos franceses. Já sobre a invasão, vale ressaltar que, como a Inglaterra encontrava-se envolvida nos conflitos da Guerra dos Cem Anos, Henrique V se mostrava ávido por glória e pretendia invadir a França. A finalidade era mesmo continuar o legado guerreiro dos reis ingleses que contestavam o trono francês.


Uma outra questão importante é o fato de como era lidar com os traidores na época. Um rei, por mais que fosse a máxima autoridade política do país, não podia ordenar a morte de um traidor pelo simples fato de ser “o rei” – como foi mostrado no filme. Para isso havia as leis e os tribunais. Conspiradores e traidores eram colocados sob custódia do reino e investigações e um julgamento aconteciam, com elaborações de longas sentenças para finalmente – se fosse o caso – chegarem no cadafalso.

Durante a invasão de Henrique V em solo francês, ele depara-se com o castelo de Harfleur. Este custoso episódio na Guerra dos Cem Anos ficou conhecido pelo uso de canhões, sapadores e por ser um longo cerco, muito além do esperado. Na película, utilizaram apenas trebouchets e a ação foi bastante encurtada para dar sequência ao filme.


O casamento de Henrique com Catarina de Valois ocorre após 5 anos da Batalha de Agincourt. Sobre a cena de Catarina repreendendo Henrique, surte uma discussão: Não podemos falar que não ocorreu, pois não podemos provar o contrário; mas seria improvável dizer que ocorreu. Catarina deu a luz ao herdeiro da Inglaterra e se tornou a rainha mais poderosa da cristandade. A cena pode ser uma forma de apresentar a importância das mulheres no medievo: Diferente do que se pensa, elas tinham lugares estratégicos e desempenhavam importante papel político.

A Batalha de Agincourt

Como já citamos durante quase todo o artigo, o período retratado transcorre durante a Guerra dos 100 anos. A vantagem mudava de lado assim como os ventos mudam sua direção: repentinamente. Porém, neste período específico, a vantagem era claramente inglesa.


Podemos julgar que as cenas da Batalha de Agincourt seja uma das melhores cena de batalha de um filme, pois é retratada de uma forma que nos faz acreditar que eram realmente batalhas na Idade Média. Por exemplo, em Coração Valente as batalhas eram retratadas de forma fantasiosa. Sangue jorrando na tela; cabeças, braços e mãos voando pra todo lado; além de outras coisas cinematográficas. Isso não ocorre na Batalha de Agincourt de O Rei. Óbvio que há sangue e morte por todos os lados da tela que você olha, porém, de uma forma que podemos notar mais realística, tornando o filme mais agradável de se ver e aceitar.


Outro ponto que chama a atenção é a retratação do uso do terreno como vantagem para a vitória dos ingleses. Normalmente, quando se fala que o terreno foi usado dessa forma, vemos um exército sobre uma colina e o outro abaixo; ou um exército que usa um bosque ou floresta para surpreender o outro. Em O Rei, o que foi usado como vantagem foi um terreno encharcado. Mais simples e direto, impossível. As tropas com armaduras pesadas, tinham mobilidade reduzida sobre esse terreno e aí foi construída a vantagem dos ingleses sobre os franceses.


Sobre a batalha histórica, vale ressaltar alguns pontos: os homens de Henrique estavam cansados e os franceses descansados e com boa saúde; a formação que o exército inglês assumiu foi um pouco diferente da representada do filme; Henrique e os arqueiros não estavam no bosque; e o Rei Henrique liderava os ingleses pelo centro, enquanto os arqueiros estavam nos flancos, protegidos por grandes estacas de madeira, como lanças, fincadas no chão.


Falando em lanças, a cavalaria usava a lança como arma principal para as cargas. E, como acabamos de citar, a única forma que os arqueiros tinham para se defender de uma carga devastadora da cavalaria eram as toras plantadas no chão. A batalha é exatamente famosa por esta tática defensiva usada por Henrique V. Porém, infelizmente, no filme os diretores optaram por alterar isso.


Resumindo, Agincourt foi um campo de batalha tático. Na França, chovia por uma semana muito forte e todo o campo estava macio e fofo. Os cavaleiros e infantaria que possuíam placas, geralmente vestiam uma túnica ou tabardo em cima da armadura para prevenir que o calor tornasse insuportável e que pudessem reconhecer seus iguais no calor da batalha.


Ainda sobre as vestimentas, Timothée Chalamet deveria ter usado uma armadura mais chamativa pois o rei precisava chamar atenção no campo de batalha. Isso servia para inspirar os soldados a lutarem com maior fervor. Como fora documentado pelos arautos ingleses da época, e mais tarde por Shakespeare, o Rei utilizou uma armadura de placas com uma tabarda com as cores do Reino da Inglaterra e do Reino da França, e em seu elmo havia uma coroa.


O elmo de Henrique V, inclusive, foi uma das peças mais importantes do dia. Apesar de aparecer diferente no filme, várias fontes apontam que Henrique estava coberto de aço da cabeça aos pés. Assim liderou os homens até o final da batalha e com uma parte de seu elmo totalmente amassado. No filme, Henrique fica sem o elmo durante toda a batalha mas, sem a proteção na cabeça, o Rei muito provavelmente teria morrido em batalha.


Já próximo ao fim da batalha, os franceses atacaram os suprimentos ingleses, atitude da qual Henrique V se viu forçado a executar os prisioneiros capturados, alegando que estava em desvantagem numérica estrondosa.

Vale “perder” seu tempo?

A resposta é sim. Diante de alguns fatos que comentamos durante o artigo, chegamos a conclusão de que o filme vale o investimento de tempo para se entreter. Afinal, lembram-se? As artes, por mais fidedignas que sejam à história, precisam ser encaradas como entretenimento. Podem ter a vantagem de, além de serem entretenimento, agregarem como um fonte de pesquisa histórica, obviamente. Porém, isso quase sempre vai ser um plus do filme ou série e não uma regra.


Concluímos que O Rei é, sem dúvidas, um filme que bebeu da fonte Shakespeariana. É um ótimo filme, com grandes e boas surpresas. Acurado historicamente? Nem um pouco, mas é um ótimo drama e um excelente entretenimento.


Então, caso você ainda não tenha visto esse filme, pode preparar sua pipoca e reservar sua poltrona favorita em casa ou se aninhar debaixo do cobertor com sua companhia preferida e colocar O Rei na TV para assistir. Aproveitem!

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