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Northman - Homem do Norte

Os filmes históricos sempre geram discussões acaloradas na comunidade histórica, seja pela trama, coerência, o quão destoante da realidade histórica e da cultura material, o que sabemos, diversas vezes os diretores e produtores exageram a ponto de chegar a níveis bizarros os filmes de época. Northman, do diretor Robert Eggers, lançado em maio de 2022 no Brasil, é uma adaptação direta da Saga de Amleth, uma das principais inspirações para a obra de William Shakespeare, Hamlet.


Além de uma temática histórica, temos a variante e talvez a problemática de produções artísticas focadas na cultura escandinava, mais especificamente no período dos Vikings. Houve uma longa construção de toda a mística por trás da cultura e da religião escandinava, criando-se mitos dentro dos mitos, estereótipos que não se encontram bases e fundamentos em nenhum lugar, bem como a idealização e a romantização do viking como uma figura quase que semi lendária em vários sentidos. Bom, Northman é um filme que contou com um pesado orçamento, atores famosos e uma histórica de inspiração. Apontaremos agora nossas considerações sobre o filme.

Imagem promocional de Northman

Momento Histórico e Sagas


Um dos primeiros tópicos que abordaremos sobre Northman, é o momento histórico e o que podemos compreender por sagas. O filme começa com versos de uma reza para Odin. Pouco tempo depois, mostra a figura do Rei Aurvandill, Corvo de Guerra, descrito como Rei do Jutos pelas sagas, chegando em sua fortaleza após uma campanha. O ano é 896 d.C. Importante compreender este momento histórico, pois o diretor trabalha com as variações da lenda. A Saga de Amleth é descrita em diversas variações, sendo a mais famosa, a escrita por Saxo Grammaticus no século XIII, que escreve a história nos livros 3 e 4 da Gesta Danorum. Há outras variações da história de Amleth presentes no século XII com a Chronicon Lethrense, uma obra dinamarquesa que trata dos reis lendários bem como até na Edda Poética e em achados islandeses.


A história se passa na Noruega, o que explica a principal ligação para Fjolnir futuramente ser desterrado por Haroldo, Cabelos Belos e sua unificação da Noruega, levando a história para a Islândia. Apesar de ser uma adaptação, há uma coerência linear e histórica dos fatos o que não tornaria a história absurda, pelo contrário. Ainda, faz-se importante mencionar que pouco tempo depois, a Dinamarca seria unificada e começaria a cristianização dos povos escandinavos, primeiro com os dinamarqueses e depois com os noruegueses. Ou seja, a história começa a se passar no início do crepúsculo do tempo dos vikings.


Saga, originário do nórdico arcaico, sogur, nos remete ao “o que é dito, conto oral”. Com o tempo teve seu significado expandido a “histórias, contos, estória”. Presente na cultura escandinava, permeou com o tempo e aborda diversas obras e objetos: Reis e histórias lendárias antes do cristianismo, heróis, viagens dos vikings, migrações para Islândia, Groelândia, rivalidades, ensinamentos sobre virtudes e com a cristianização dos povos escandinavos, passou a abordar também a vida dos santos, bispos, Reis cristãos escandinavos, políticas locais e romances cavalheirescos. Seus gêneros variam de Sagas dos Reis, Sagas Islandesas (uma das mais famosas), Sagas Lendárias, Sagas Cavalheirescas, Sagas de Santos e Bispos. Importante lembrar que Saxo Grammaticus era cristão, mas nem por isso excluiu ou diminuiu a história e a Saga de Amleth, pelo contrário, a Gesta Danorum é uma obra considerada um dos trabalhos medievais que mais preserva e enaltece o povo danês.


Sociedade


A sociedade em Northman é tratada de forma simples, mas passa a mensagem que deve ser passada. Como estamos falando de um filme dirigido por Robert Eggers, temos a relação entre senhor, escravo, sacerdotes muito claras. Podemos perceber também como a relação dos escravos, o que não era novidade, mas era uma constante presente nas sociedades, sempre foi dividida em escravos que trabalham em serviços mais pesados e os escravos domésticos.

Rei Aurvandill recebendo uma homenagem.

Há uma clara distinção no trato entre os nobres, guerreiros, servos e os escravos. Olga, chamará a atenção de Fjolnir e naturalmente de Amleth, pois ela se encaixa exatamente entre os padrões de beleza da sociedade escandinava da época. Não é à toa que a Rainha Gudrún também possui praticamente os mesmos atributos: Cabelos longos, pele pálida, o que significa que não ficava nos campos trabalhando por muito tempo. Naturalmente, é um estereótipo de beleza muito mais presente entre a nobreza do que entre os servos ou escravos.


Faz-se uma distinção clara também entre os guerreiros e os Beserkers, que também trataremos logo mais. Não apenas por sua natureza, seu modo de combate ou o transe que estes guerreiros adentravam, mas podemos perceber em mais de um momento, seja no ataque aos Rus ou na hora em que os homens de Fjolnir estão querendo combater os espíritos e passam a ter alucinações com os cogumelos.


Uma das cenas mais marcantes para mencionarmos na sociedade escandinava é exatamente o momento em que os escravos islandeses praticam um esporte muito parecido entre futebol e cricket, algo do gênero. Ocorre, que não há nenhum achado arqueológico, relato de história oral ou por meio das prosas e sagas que comprovem a existência deste esporte de escravos, assistidos pelos nobres. Temos, por exemplo, nas Sagas Islandesas (Saga de Súrssonar de Gisla), a presença de um esporte de nobres, com uso de bolas e marcação de pontos, que era um esporte bem violento e machucavam uns aos outros. O que não era uma novidade vindo da realidade medieval, seja ela cristã ou pagã neste caso.


Heimir, o Tolo: É o personagem que William Dafoe dera vida. O bobo da corte, o bufão, é um dos personagens mais rápidos do filme, entretanto, caso o leitor tenha percebido, Heimir, o Tolo, também é o Alto Sacerdote, naturalmente também interpretado por Dafoe. Historicamente, sabemos que isso seria muito improvável em aplicabilidade prática, mas há um curioso e interessante motivo para esta colocação.

Os bobos da corte possuíam duas principais funções nas cortes: Entreter as pessoas geralmente em festas ou eventos onde sua presença era cabível, o que poderia ter duas variações – Piadas, aleatórias ou direcionadas a certas pessoas, e outra importante e interessante forma de presença do bufão medieval, é a função de conselheiro do nobre local. Não era algo corriqueiro, mas existem possibilidades que assim a relatam. Heimir, na trama, faz uma piada bem desconfortável a um dos membros que depois mostraria ser um conselho ao Rei Aurvandill e ao jovem Amleth. Sua presença como Alto Sacerdote existe exatamente para mostrar que sua presença não apenas na corte, mas na sociedade retratada, sua palavra teria algum peso, mesmo que as pessoas o considerassem um mero tolo.

Heimir, o Tolo

Guerra: O fenômeno da guerra é pouco retratado em Northman, apesar de falarmos da sociedade escandinava, que é uma sociedade guerreira. Como a guerra é pouco retratada (por não ser o foco principal do filme), temos poucos contatos com tais cenas, entretanto, podemos perceber uma atividade de saque dos escandinavos contra os Rus.


Sendo uma cena que contém suas ressalvas, que abordaremos nas incongruências do filme, podemos perceber e analisar algumas coisas: Não era estranho ao mundo dos eslavos ou dos escandinavos, lutas entre estes dois povos. Naturalmente, os escandinavos contavam com o fator surpresa de uma emboscada, de um cerco surpresa, o que significa, que muitas vezes os assentamentos eslavos próximos ou dos locais famosos por incursões escandinavas deveriam ter defesas e estar sempre preparados para um ataque, o que explica a paliçada construída. Muitas vezes, saques eram feitos e seu resultado criava um fluxo de mercadorias e pessoas ao longo das rotas de comércio. Como consequência da vitória escandinava, mercadores de escravos se aproximam e passam a discutir quais escravos e para onde vão. É uma fala que não está afastada de seu contexto histórico.


Cultura Material


A cultura material em Northman é muito rica e presente em praticamente toda cena. Para os amantes, estudiosos, encenadores, podemos dizer que era um prato cheio, mesmo até quando o objeto não se encaixava em determinada peça de roupa, historicamente falando.


No geral, a cultura material foi muito bem feita e os detalhes presentes no filme mostram bem a preocupação dos produtores com determinados assuntos. A Rainha Gudrún, mãe de Amleth, penteando seu cabelo com um pente de osso ornamentado, podemos perceber uma grande preocupação com os interiores dos edifícios, com paredes internas pintadas na casa dos senhores, tapeçaria como um dos ornamentos principais e o Grande Salão do Rei Aurvandill, uma das melhores representações de como um Grande Salão deveria ser, com um jogo de luz sempre bem feito – Utilizando-se da grande fogueira central e das luminárias laterais; Apesar de termos apresentado apenas a tapeçaria como objeto de adorno, o filme é cuidadoso até em apresentar como os ornamentos de tapeçaria eram importantes para os nobres, como deveriam ser cuidadosamente carregados. Ainda, como abordaremos a seguir, os colares, braceletes, são todas réplicas idênticas encontradas em museus, bem como os broches de tartaruga, as túnicas, vestidos, calças thorsberg.


Roupas: As roupas em Northman foram um dos objetos mais discutidos e esperados pela comunidade histórica. Bom, vamos separar nossas impressões na indumentária feminina e na masculina.


Os vestidos, foram todos feitos de lã, percebe-se um grande cuidado na pesquisa histórica em museus, pois os recortes são fidedignos e as cores também. Ao se produzir, ao pesquisar um determinado momento históricos, se o diretor busca reproduzir aquele período da melhor forma possível, até as cores devem ser levadas em consideração e neste caso, Eggers foi impecável. Há também vestidos de avental com broches, que como dito anteriormente, mas importante elogiar diante de um cenário tão diferenciado nos filmes históricos, eram broches da época. Temos os sapatos históricos femininos, braceletes, de belíssimos recortes.


Para os homens, temos túnicas, calças “simples”, calças thorsberg, camisas, envoltório de pernas e sapatos. Mais uma vez, para o vestuário masculino Eggers teve a mesma preocupação em dar um ar histórico e fidedigno ao homens do filme. É neste contexto, que podemos perceber um detalhe muito bem apresentado na obra, que o colar em que Amleth passa praticamente a trama toda, é um colar entregue por seu pai durante o ritual do lobo. Este tipo de colar, é muito presente na sociedade escandinava. É um ornamento, que tinha por costume transformar moedas antigas ou estrangeiras em adornos, ou seja, existem colares escandinavos de moedas vindo do mundo islâmico, Constantinopla e até as mais antigas como moedas do Império Romano.


Além disso, vale ressaltar que a grande maioria das roupas foram cuidadosamente organizadas em meios de produção manuais, assim como eram feitos no próprio medievo, com a supervisão de um polonês que ficou encarregado de entregar as roupas neste modelo, algo até o momento, inédito em filmes históricos.

Jovem Amleth, Rei Aurvandill, Rainha Gudrún

Armas e Armaduras: Ao tratar de escandinavos, vikings, germânicos ou idade média, sempre temos três grandes problemáticas: A primeira é a presença de um anacronismo ou fantasia, ou seja, itens que não seriam cabíveis daquele período ou povo; A existência de couro em tudo quanto é lugar, praticamente armaduras feitas de couro e o terceiro fator problema é a caracterização e forma como é construído os guerreiros destes povos: Geralmente nos remete a um grupo de Folk Metal ou grupos de metaleiros (muito presente em séries, às vezes os três fatores conjuntos). Ocorre, que mais uma vez estamos diante de anacronismos e para o estudo histórico isso é uma das piores coisas.


Podemos perceber a presença de espadas de duas épocas distintas e isso não é um erro de Robert Eggers e sim um detalhe que o diretor importou de seus consultores históricos e das Sagas, relacionado a religião do panteão germânico/nórdico, que abordaremos a seguir. Os escudos, devem ser muito bem valorizados. A “pega” foi colocada da maneira correta, as bossas presentes nos escudos não ficaram com cara de produção em larga escala ou industrial, muito bem representadas e os escudos em seu acabamento lateral, o filme os retrata como couro, o que foi uma ótima e histórica escolha.


As armaduras possuem poucos problemas. No geral, temos um aspecto muito bem positivo. O elmo do Rei Aurvandill é um elmo belíssimo e demonstra o seu status social e não apenas senhor daquele pequeno reino, mas de líder guerreiro que combate e retorna com espólios. O elmo de Fjolnir também é um elmo histórico, sua armadura iremos apresentar a problemática nos apontamentos de erros ou discussões históricas e arqueológicas. No geral, as armas e armaduras entregaram e convenceram bem aos estudiosos, aos reencenadores históricos, pois demonstram mais uma vez que houve a preocupação. Aliás, podemos perceber claramente no filme que há a presença da cota de malha rebitada e não a cota de malha por pressão, que geralmente é usada nos filmes.

Rei Aurvandill retorna de campanha

Religião


Runas: O estudo do nórdico arcaico pode ser encontrado nas obras do Dr. Jackson Crawford, que é uma das maiores autoridades estadunidenses e do mundo no estudo dos povos escandinavos, elogia a forma como o filme é trabalhado, utilizando-se palavras antigas, contemporâneas a história, como Valhöll. Apesar de serem detalhes pequenos, contribuem para uma preocupação inclusive, linguística e fonética da sociedade escandinava. O alfabeto rúnico é um sistema de linguagem, Futhark, dividido entre Jovem Futhark e o Velho Futhark, sendo dividido de acordo com a divisão temporal. Northman se passa durante o tempo do Jovem Futhark, ou seja, no período das incursões vikings.


De um modo geral, de acordo com o Prof. Henrik Williams, especialista runologista que trabalhou dentro da equipe histórica, foi o responsável por trabalhar com as runas, mostrou-se que as runas presentes na película, são todas historicamente bem acuradas e fazem sentido com o que é mostrado no filme, com o próprio professor Crawford endossando esta ideia. A única exceção seria a runa escrita na espada que Amleth encontrará com o Draugr, que logo abordaremos.


Beserkers: Os míticos guerreiros Beserkers são um dos elementos da cultura germânica e escandinava mais presentes na cultura popular, podemos ver sua presença em filmes, jogos, séries, músicas. Em Northman, o elemento da figura do Beserker é muito presente, desde o começo do filme, onde temos o ritual do Rei Aurvandill com o jovem Amleth, tornando-se um lobo, bebendo-se da fonte do pai e do filho lobo, da Saga dos Volsungs.


Há grande nebulosidade sobre a existência dos Beserkers. De fato, eles existiram historicamente, isto não há o que negar. Entretanto, temos uma dificuldade histórica em bem representar estes guerreiros místicos, pois faltam elementos materiais e históricos que corroborem com informações, realidade prática e histórica.


Robert Eggers navega em águas perigosas portanto, mas se sai muito bem ao retratar os Beserkers. Há transe, união, “transformação”, há elementos do pensamento medieval do que é ser um Beserker dentro do filme, mesmo com roda a dificuldade e a ausência de cultura material vivida. Eggers opta por seguir a tradição das sagas e da mentalidade medieval, pois estes guerreiros, Úlfhéðinn, estão em um relacionamento com o deus Odin, conforme podemos perceber na Saga Vatnsdœla e Haraldskvæði, isto explica muitas vezes a relação de Amleth com Odin e a sua rivalidade com Fjolnir, que tem por deus patrono Freyr, onde há uma rivalidade entre os deuses. Além disso, Freyr é considerado o “deus dos suecos” na Islândia, sendo uma divindade relacionada aos estrangeiros. Este é um detalhe interessante, uma vez que os personagens estão na Islândia por exílio.

Amleth atacando os eslavos

Sua única problemática no filme pode ser sua caracterização. Não aquele lobo que reveste o elmo dando um belo visual ao guerreiro, mas sim na ausência de roupas ou armaduras. Quando estudados as sagas, professor Crawford nos ensina que há apenas uma menção de luta dos Beserkers sem armadura, mas a obra escandinava não nos fornece elementos se o indivíduo está pelado, com roupa simples.


Elmo Com Chifres: Toda vez que abordamos a questão dos vikings, vem a tona o clássico apontamento do elmo com chifres. Mas, vamos direto ao ponto. Durante a cena de transformação dos Beserkers, temos um dos guerreiros mais velhos, com um elmo com chifres. Ocorre, que aqueles não são simples elmos com chifres com o objetivo de impor ainda mais estereótipos aos vikings e sim a oportunidade de dar a vida um achado arqueológico.


Notamos que os guerreiros naquele momento não estão em combate, estão dançando, entrando em transe. Logo, como lembramos, há uma relação direta com Odin, ou seja, é uma cerimônia, um rito. Aquele elmo, vestido por aquele guerreiro mais velho que conduz o rito, veste um elmo cerimonial e não de combate, com base nos achados arqueológicos das placas de Thorslunda, na ilha sueca de Oland. Particularmente, lembrar e associar o achado arqueológico com o personagem em meio a um rito, sendo que a placa condiz com o momento descrito no filme é muito gratificante.

Placa de Thorslunda

Draugr: Os mortos, estão presentes na cultura nórdica. Sua história não tem segredos. São seres mortos vivos, que não devem ser confundidos com o conceito moderno de zumbi muito menos de um fantasma, mas o corpo reanimado de uma pessoa morta, geralmente dentro de uma tumba. Sua principal característica é sempre uma força super humana, tendo um tom de palidez ou um “azul morte”, termo retirado da Saga Laxdaela.

Draugr e Amleth

Em Northman, um Draugr aparece cumprindo todas as expectativas dos estudiosos e amantes da civilização escandinava. É dito a Amleth que ele estaria sob posse de uma espada antiga, dentro de uma antiga tumba. Apenas nestes relatos temos diversos elementos presentes dentro das sagas. Todo o entorno, faz jus e sentido ao observarmos. Tumba era um barco antigo, a espada que o Draugr guardava era uma espada com guarda e desenho da época das migrações, ou seja, realmente era uma espada de tempos antigos, que possuía propriedades mágicas, como por exemplo, é muito comum vermos nas histórias das sagas, espadas específicas que só podem ser desembaiadas ou utilizadas em determinadas condições específicas.


Basta olharmos com um pouco mais de cautela que mais uma vez podemos ver os frutos dos achados de Thorslunda em Northman, em uma associação direta do Draugr com a placa do guerreiro. Os detalhes no elmo mostram exatamente este cuidado.


Todos estes elementos presentes no filme temos presente em sagas como por exemplo, a Saga de Hervor e Heidrek; Saga de Hrólf Kraki. A única exceção que não está presente no filme e podemos perceber lendo as sagas e como o próprio professor Jackson Crawford aponta em suas impressões, é a ausência de diálogos entre o Draugr e Amleth, que poderia ter dado ainda mais profundidade a cena, demonstrando quem era aquele homem que aguardava a chegada de Amleth para efetuar sua vingança, quais suas motivações para defender a espada e elementos da natureza.

Placa de Thorlunda. Observem o elmo com o Draugr

Portões de Hel: Os portões de Hel estão muito bem presentes no imaginário do filme, do começo ao fim. Primeiro, devemos ressaltar que Hel não é a versão nórdica do inferno ou do purgatório, faz parte de uma dos nove mundos da mitologia nórdica. É governado pela deusa Hela ou Hel, é um mundo dos mortos, mas não da morte gloriosa ou heroica de batalha e sim o mundo daqueles que pereceram de alguma doença ou morreram de velhice, decurso natural da vida. Naturalmente, torna-se o mundo mais populoso com o passar do tempo.


Sua aparência remete a escuridão, e o “trabalho” de Hel, que é uma gigante sonolenta e taciturna, que é filha de Loki, irmã de Fenrir e da Serpente de Midgard. É um mundo que se encontra nas profundezas das raízes de Yggdrasil e todo o mundo está cercado por longos muros e por apenas um grandioso portão, que pode ser acessado após uma longa e sinuosa estrada, que sempre está em declive, conhecida por Helveg, a Estrada para Hel.


Funeral: Os ritos fúnebres da Escandinávia está presente no filme. Desde um local de enterro antigo, onde Amleth encontra o Draugr bem como podemos presenciar um rito fúnebre do filho de Fjolnir, Thorir, o Orgulhoso. Devemos lembrar de algumas coisas. Ritos fúnebres na história nos serve para compreender a forma de um determinado povo lidar com a morte e como eles tratavam o fenômeno, utilizando-se de suas crenças e tradições.


Não era estranho aos nórdicos levarem presentes e bens aos funerais. Tudo dependia da classe e escala social que cada cidadão tinha na sociedade. Escravos geralmente era enterrados em um buraco, apenas para se assegurar que não retornariam para assombrar os mestres, homens livres poderiam ter alguns bens e os artesãos, sem sombra de dúvidas eram enterrados com suas ferramentas.


A situação muda com os nobres. Seja homem ou mulher, havia uma boa quantidade de bens, inclusive animais, em Northman podemos ver até cavalos sendo sacrificados para o funeral, com a possibilidade de escravos e até amantes serem executados para que o além vida da pessoa em questão não fosse solitário. É importante ao nobre que ele goze do mesmo status social que o teve em vida, para evitar que não seja reconhecido e assim se torne um vagante pela eternidade.


Sacerdotes: O filme retrata dois tipos de magia, mas devemos ter cuidado com este termo pois quando falamos em magia, neste caso estamos falando da concepção que o nórdico em sua religião compreendia como magia e não como um “fenômeno sobrenatural fantasioso” presente em universos de diversos mundos. Há dedo direto da religião nórdica neste caso e podemos ver e perceber duas claras distinções fenomenais feitas por Robert Eggers no filme.


Primeiro, temos a figura do Alto Sacerdote, que é homem de confiança do Rei Aurvandill e também compre o papel de Heimir, o Tolo. O Alto sacerdote era um homem sempre muito poderoso na sociedade, dotado de grande conhecimento e sua palavra possuía grande peso. Até o momento, nada muito novo a se observar. Mas, o diálogo entre o Alto Sacerdote, o Rei e o jovem Amleth faz-se notável e a título de desfrutar melhor o título, recomenda-se entender e compreender as palavras do sacerdote.


O grande momento pula para quando Amleth, crescido, está na Islândia e encontra-se com um sacerdote praticante de seidr, ou seja, com a prática religiosa de se ver o futuro. O Alto Sacerdote, aconselha a Amleth a ficar bem longe de magia seidr, pois era uma magia profana. Os detalhes aparecem por aí. O sacerdote que irá não apenas invocar um espírito na presença do protagonista mas também prever e ver o futuro, é um homem. Seidr na sociedade escandinava é uma magia profana, considerada e entendida geralmente de prática feminina, as volur, proibida aos homens. Isto não significa que homens não conseguiam praticá-la e o filme retrata bem isto. Portanto, para mostrar que era um tipo de magia geralmente praticado por mulheres, o sacerdote que pratica este tipo de magia profana e proibido, por ser homem, estava vestido de mulher. Por ser uma cena dentro de uma caverna, com pouca luz e muito envolvente nos diálogos, é um detalhe que pode passar despercebido, mas faz toda a diferença ao analisar a cena, compreendendo o contexto social e religioso dos povos escandinavos.

Sacerdote praticante de Seidr

Críticas


Algumas críticas devem ser tecidas em meio a uma gama tão alta de acertos e bons apontamentos, apenas a título de observações. Primeiro, devemos observar que o cartaz do filme nos aponta Amleth segurando uma seax no “estilo” ninja, o que não faz nenhum sentido. Não há nenhum acostamento histórico que corrobore que os homens lutavam dele jeito.


Dissemos também que os Beserkers eram difíceis de retratar e tinham sempre um grande problema, pois bem, seu único grande problema de retratação do filme é exatamente retratar os guerreiros com o clássico estereótipo da lama, muito comum na realidade dos filmes medievais.


Além disso, se por um lado as roupas e os equipamentos demonstraram ter sido muito bem cuidadosamente pensados, um equipamento em especial chamou atenção de forma negativa. O elmo de Finnr, o Sem Nariz, é um elmo de couro. Não podemos compreender quais eram as intenções dos produtores ou de Eggers ao trazer aquela peça tão estranha e não histórica para o filme. O mesmo vale para a aplicabilidade de armaduras de lamelas, que Fjolnir usa. É uma belíssima peça, mas há toda uma discussão em volta: Vikings usavam armaduras de lamelas? Os achados arqueológicos geralmente são de cidades, não se sabem se são das guarnições locais ou dos mercenários orientais ou do sul, principalmente dos sítios arqueológicos de Birka.


Por fim, temos algumas considerações a serem feitas entre as relações das sociedades escandinavas e eslavas. O ataque surpresa contra os eslavos poderia ter sido utilizado um aríete e não o ato de escalar a paliçada, sem uma escada ou equipamentos de cerco. Oras, além disso, temos uma clara menção aos eslavos, por parte dos escandinavos chamando-os como selvagens. Além de anacrônico é um tipo de comentário e fala que está totalmente fora de seu contexto histórico. Não faz-se presente o conceito “romano x bárbaro” tampouco o “civilizado x bárbaro/selvagem”, presente nas obras de Homero, muito utilizado no mundo helênico. É importante destacar que existe uma diferença prática entre bárbaros e selvagens no contexto de aplicabilidade semântica das palavras.


Os eslavos sempre tiveram contato e relações com os escandinavos. Contemporâneo a história, o jovem Rurik, que claro não aparece, seria um dos homens mais importantes para a formação de um dos Estados eslavos chave do medievo: A Kiev de Rus. Além disso, os conflitos entre os escandinavos e eslavos criavam uma teia comercial, política e social, onde havia mistura dos povos, inclusive a caminho de Miklagard ou Constantinopla pela Rota Varegue do Volga.


O próprio ritual fúnebre utilizado por Eggers no filme, é um ritual muito parecido, quase idêntico com todo o aparato encontrado ao longo dos povos Rus do Rio Volga, em Bulghar, no século X. Portanto, se há certas similaridades, mais uma vez não podemos falar em asco cultural. Mesmo com as religiões diferentes, por exemplo, a sacerdotisa do templo eslavo, do deus Svetovit, indaga Amleth sobre o conceito dos “fios do destino”, tecidos pelas Nornas. A mitologia eslava possui exatamente o mesmo conceito.

Fjolnir e sua armadura com lamelas e homens mascarados

Vale ou Não a Pena


Diante de tantos apontamentos feitos pelo História e Combate Medieval, temos algum veredito? Do ponto de vista histórico e de entretenimento, vale a pena assistir Northman? Depois de tantos anos, com um enfoque grande na cultura nórdica e nos vikings, Northman finalmente pode ser descrito como um filme digno de se assistir sem aborrecimentos ou erros crassos.


Naturalmente, um filme que retrate exatamente a história é impossível, por várias questões, mas Robert Eggers não comete erros absurdos, segue um roteiro muito bem escrito, o rigor apresentado nas roupas, edifícios, ambientações, inclusive em algumas palavras e runas dão um frescor a produção cultural dos povos do norte em um cenário onde todo e qualquer anúncio sobre nórdicos, gera um desconforto e até arrepios por parte da comunidade histórica.


Com uma ótima equipe histórica, como Neil Price, Terry Gunnel e Jóhanna Katrín Friðriksdóttir atuando como consultores históricos e inspirações de fontes primárias de diversas Sagas (Havámal, Edda Poética e Edda em Prosa, Amleth, dentre outros diversas obras históricas), é um filme onde o detalhismo ocorre a todo momento, percebendo um forte trabalho de pesquisa, tal qual como o não usual adorno dos dentes que a Valquíria o veste (não é aparelho), onde não sabemos o real motivo de sua aplicabilidade na sociedade nórdica, mas ele existe e é atestado nos achados de dentes de algumas pessoas.


É um ótimo filme para compreendermos e tentarmos captar os aspectos da literatura medieval, é um prato mais do que cheio e positivo quando analisamos as sagas, pois Northman possui literalmente todos os elementos de uma saga e ainda trabalha de forma brilhante com o conceito da mistura entre realidade, mitologia e fé, devendo deixar sempre imperiosamente claro que isto é bem diferente de um título de fantasia.

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